Número de mortos já ultrapassa os 99 casos registrados ao longo de
2012; últimas vítimas foram um homem morto a pedradas em área de
cemitério e outro a facada no Santo Antônio
Por Marcos Araújo e Sandra Zanella*
O homicídio de um homem, 35 anos, morto
a pedradas e encontrado, na manhã desta sexta-feira (13), no Bairro
Centenário, Zona Nordeste, e o assassinato à facada de um jovem, 20, na
noite de quinta-feira, no Santo Antônio, Zona Sudeste, elevaram para cem
o número de mortes violentas registradas em Juiz de Fora apenas nos
nove primeiros meses de 2013. Faltando mais de cem dias para o fim do
ano, o número já ultrapassa os 99 casos registrados em 2012, que já
haviam sido muito superiores aos 52 homicídios de 2011. A estatística
segue levantamento da Tribuna, que leva em conta os óbitos ocorridos
também nos hospitais em decorrência de crimes violentos, como homicídio e
latrocínio, e não apenas as vítimas mortas nos locais dos fatos. Já
conforme a Polícia Militar, a cidade teve, até sexta, 72 assassinatos.
A escalada explícita da violência, com a perda de mais de cem vidas
de forma brutal em um curto período, configura uma realidade nunca
vivida pelos habitantes de Juiz de Fora. Para especialistas, essa onda
de criminalidade que resulta no recrudescimento de vítimas fatais
atingiu um patamar inimaginável há cinco anos. Em 2009, foram 39 casos
registrados. Nos dois anos seguintes (2010 e 2011), houve empate, com 52
ocorrências. Seguindo a mesma tendência do ano passado, a Zona Norte
lidera o avanço de mortes violentas, com 34 registros. Em segundo lugar,
está a região Sudeste, com 31, na mesma colocação de 2012.
Como apontam estudiosos em criminalidade urbana, o cenário de Juiz de
Fora pode ser comparado ao que aconteceu em muitas capitais, nas quais
os homicídios cresceram de forma proporcional ao aumento da
disponibilidade de armas de fogo. Só elas foram responsáveis pela morte
de 78 pessoas. A maioria das vítimas continua sendo do sexo masculino:
92 (ver quadro). A faixa etária mas atingida é a de 18 a 25 anos, com
27 registros. Entre as vítimas mais jovens estão dois adolescentes de 14
anos. O primeiro é Leandro de Oliveira Amâncio, morto em 17 de abril,
cujo corpo foi encontrado amarrado em uma árvore, no Parque das Águas. O
segundo é Lucas Márcio Gonzaga de Castro, alvejado por uma bala perdida
durante troca de tiros de grupos rivais, no último dia 8, no Santo
Antônio. A vítima mais idosa é Adolfo Pires Brasil, 87, morto em abril a
golpes de bengala.
Pedradas no cemitério
A centésima vítima de morte violenta este ano foi João Celestino da
Silva Filho, 35, assassinado a pedradas em um terreno pertencente ao
cemitério Parque da Saudade, com acesso pelo Centenário. Ele estava com
afundamento na face e ferimentos na nuca. Ao lado do corpo, havia uma
pedra grande supostamente usada no crime. De acordo com o policial que
responde pelo comando da 31ª Companhia da PM, capitão Marcelo Monteiro
de Castro, a suspeita é de que o crime aconteceu entre 22h e 23h de
quinta-feira, quando vizinhos escutaram cachorros latindo.
Pela manhã, moradores das imediações avistaram o corpo e acionaram
funcionários do cemitério. A vítima não portava documentos. No fim da
manhã, um irmão de João, 34, fez a identificação do homem, morador do
Centenário. Conforme o capitão Marcelo, a violência aconteceu em uma
área de expansão do cemitério, que costuma ser invadida por usuários de
drogas. Parentes da vítima relataram terem sido informados sobre uma
briga envolvendo a vítima por volta das 22h de quinta-feira. Um
suspeito, 22, foi identificado, mas não foi encontrado durante
rastreamento.
A assessoria do Parque da Saudade informou que o espaço possui
segurança armada 24 horas. As rondas acontecem diariamente nos locais de
circulação de pessoas, como capelas, e nos jardins, onde há jazigos. A
assessoria ressaltou, ainda, que a ocorrência foi registrada em uma área
não frequentada por clientes, de futura expansão do cemitério, próximo à
Garganta do Dilermando.
Facada em ponto de ônibus
O jovem esfaqueado em um ponto de ônibus no Santo Antônio, por volta
das 22h de quinta, chegou a ser socorrido e levado para o HPS, mas não
resistiu e faleceu às 23h30, segundo a assessoria da Secretaria de
Saúde. Uma avó da vítima, 62, relatou à PM que Weiderson Soares
Marcelino estava no ponto final do bairro, na Rua Antônio Gonçalves da
Cruz, e que se assustou quando o neto apareceu em via pública com um
ferimento no abdômen, caindo no chão. Além da perfuração, o rapaz
apresentava ferimentos na face em decorrência da queda. Policiais não
obtiveram informações sobre suspeitos, e ninguém foi preso.
Família
Um dos casos que chocou a sociedade juiz-forana este ano foi a morte
de Welerson de Oliveira Clemente, 41 anos. Ele foi a vítima de número 62
na lista das cem mortes. O homem estava em um velório na capela da
Matriz de São Benedito, no bairro de mesmo nome, quando três homens
chegaram e abriram fogo, atingindo quatro pessoas. Houve pânico, e os
presentes tentaram fugir diante da cena brutal. Welerson foi baleado no
abdômen e morreu. No local, estava sendo velado Cosme Damião Moreira
Pereira, 39, assassinado, na madrugada anterior, na Vila Alpina. Para a
irmã de Welerson, a auxiliar de serviços gerais Silvânia Maria Clemente,
49, a situação na cidade é de calamidade. "Meu irmão foi morto por uma
bala perdida. Não dá para ter segurança nem em um velório. Em todo lugar
tem violência. Não dá para saber aonde isso vai parar."
90% dos casos relacionados a tráfico e gangues
Disputas e dívidas ligadas ao tráfico de drogas e brigas de gangues
motivaram 90% das cem mortes violentas registradas até sexta na cidade,
de acordo com o titular da Delegacia de Homicídios, Rogério Woyame.
Segundo ele, as demais ocorrências estão relacionadas a motivos
passionais ou outras desavenças. O delegado apontou queda no número de
assassinatos desde a criação da especializada, em meados de maio.
"Fizemos muitas operações e apreendemos integrantes de gangues, evitando
que novos crimes aconteçam. A ideia do nosso trabalho também é melhorar
a qualidade dos inquéritos para garantir que, depois das prisões, as
pessoas possam ser condenadas pela Justiça", disse ele, afirmando que
praticamente todos os homicídios ocorridos nos últimos quatro meses já
têm autoria definida.
Para o delegado regional, Paulo Sérgio Xavier Virtuoso, a prevenção a
estes crimes passa por projetos sociais e pela educação, não estando
atrelada apenas às forças de segurança. "O que cabe à Polícia Civil é a
apuração da infração penal. Mas nossa questão preventiva é indireta, com
a prisão de autores, para que não voltem a delinquir." Segundo a
assessoria da Polícia Civil, pelo menos 25 casos deste ano tiveram
apreensões e prisões antes do encaminhamento do inquérito à Justiça.
Na conta oficial da Polícia Militar, Juiz de Fora registrou, de
janeiro até sexta, 72 homicídios, já que a corporação não contabiliza
vítimas que morreram após a conclusão da ocorrência. Mesmo assim, o
assessor de comunicação da 4ª Região da PM, major Jeferson Ulisses
Pires, considera o número alto. Segundo ele, o acréscimo aconteceu
devido à concentração de casos no primeiro trimestre envolvendo disputa
por pontos de tráfico de drogas e rixa de gangues. "No segundo
trimestre, percebemos uma queda, mas agora voltamos a constatar
tendência de aumento", ponderou.
O militar enfatiza que o grande problema do combate ao homicídio está
na impossibilidade de prevenção. "A vítima que está jurada de morte não
procura a PM, pois a maioria está envolvida com atividades ilícitas.
Isso é um dificultador do ponto de vista preventivo." Entretanto, o
major informou que, este ano, já foram apreendidas 231 armas de fogo.
Este montante supera em 31 o total recolhido no mesmo período do ano
passado. "Também já realizamos, em 2013, 4.355 prisões, o que demonstra
que temos feito nossa parte, inclusive com operações conjuntas com a
Polícia Civil." Para o último trimestre do ano, ele adiantou que serão
intensificadas as ações dos grupos de Patrulha de Prevenção a Homicídios
e do Grupo de Intervenção de Combate a Homicídios, como forma de frear
os casos.
"Em números absolutos, houve aumento de homicídios. No entanto, ainda
estamos bem atrás de outras cidades do mesmo porte no estado. Mesmo
assim, devemos nos preocupar, e o objetivo é continuar trabalhando com a
PM para que possamos retornar aos índices anteriores", concluiu o
delegado regional.
Disponibilidade crescente de armas nas ruas
Para o coordenador do Núcleo de Estudos sobre Violência e Políticas
de Controle Social da UFJF, o cientista social André Moysés Gaio, Juiz
de Fora vem em uma crescente nos casos de uso de arma de fogo em ações
criminosas, o que, consequentemente, resulta no aumento do número de
mortes violentas. Ele questiona as forças de segurança pública que, há
muito, já deveriam ter dado conta da origem desse armamento. Gaio também
ressalta a necessidade de maior mobilização das autoridades a fim de
explicar o desvio das armas do Exército. O material, que havia sido
recolhido na "Campanha de Desarmamento", estaria voltando para as ruas. O
fato veio a público em março desse ano. "Até agora, não foi divulgado
que tipo de armas eram essas, quantas foram desovadas e onde elas foram
parar. Isso precisa ser explicado, pois não sabemos se essas armas estão
pulverizadas no município. Elas estão sob o poder de quem? E, claro,
com elas circulando, muda a qualidade do crime em Juiz de Fora.
Atualmente, vivemos uma onda de crimes de roubo com uso de violência.
Caminhamos para um patamar que, há cinco anos, era impossível pensar que
chegaríamos", avalia o pesquisador.
Desde novembro passado, o 4º Depósito de Suprimentos (4ºDSup), onde
ocorreu o desvio de armas oriundas da campanha, investiga a subtração
dos materiais. O processo corre em segredo de Justiça no Ministério
Público Militar. O comandante do 4º DSup, coronel Sylvio Pessoa da
Silva, informou na sexta que a apuração continua. Sem poder detalhar o
que foi descoberto, ele afirmou que o número de armas desviadas é muito
pequeno. "Claro que é um montante que faz diferença, mas, na análise do
crescimento dos registros de homicídios, deve-se levar em conta todos os
fatores sociais que envolvem esse tipo de crime e que colaboram para
que ele aconteça. Podemos garantir que, até o momento, em todas as armas
já relacionadas nesse desvio, nenhuma está relacionada com homicídio."
Ações para conter violência
O cientista social André Moysés Gaio defende que a responsabilidade
no combate aos homicídios se estende o Poder Municipal. "Hoje os
municípios precisam ter suas secretarias de segurança pública. É
inadmissível que a Prefeitura não produza conhecimento para lidar com a
violência e combatê-la. O Estado não aumenta o contingente de policiais,
suas estruturas estão precárias." De acordo com o pesquisador do
Instituto de Relações Internacionais e Núcleo de Pesquisas de Políticas
Públicas da Universidade de São Paulo (USP), Leandro Piquet Carneiro,
Juiz de Fora tinha um nível de violência considerado baixo, quando
comparada com outras cidades no mesmo porte. Entretanto, ele avalia que
há uma convergência, na qual as taxas de homicídio entre as capitais e
as cidades médias estão se aproximando. "A possível causa dessa
tendência é aparecimento da cocaína em forma de crack, que tem uma
dinâmica própria, resultando na disputa entre grupos, por território,
por redes de distribuição, e culminando em ações violentas. Isso,
consequentemente, contribui para o aumento dos homicídios. O município
era uma das poucas cidades brasileiras com taxas quase 'europeias' de
violência até a última década, mas já não é possível, para os
administradores e para a sociedade local, manter uma distância tranquila
do problema da segurança", afirma Piquet.
O secretário de Governo da PJF, José Sóter de Figueirôa, enfatizou
que a Administração Municipal trabalha para inibir e conter os índices
de violência, embora a segurança pública seja de responsabilidade do
Governo do estado. "Adotamos uma ação complementar à do Governo
estadual, trabalhando em conjunto com as polícias Militar e Civil e até a
Polícia Federal." Ao longo do ano, a PJF vem implementando ações que
objetivam a inibição das taxas de violência. Segundo ele, o programa
"Crack, é possível vencer" vai disponibilizar, pelos próximos 18 meses,
cerca de R$ 16 milhões em ações voltadas para a área da saúde. Ainda
serão mais 40 câmeras de segurança nos bairros Jardim Natal e Vila Olavo
Costa e nos seus entornos. Figueirôa também citou o plano de ações
integradas que, junto com a PM, prevê um pacote de sete medidas. Entre
elas, o programa "Olho vivo", que vai instalar 54 câmeras em áreas
estratégicas. Conforme o secretário, os equipamentos estão em fase final
de licitação, e a previsão de início de funcionamento é para o próximo
mês. "A Prefeitura também prepara um plano piloto para a Vila Olavo
Costa, na Zona Sudeste, cujo objetivo é levar melhorias de segurança,
infraestrutura, saúde, cultura e lazer para o bairro. Além disso, também
já está em elaboração o primeiro plano municipal de enfrentamento da
violência. Ele vai servir para traçarmos um enfrentamento do problema de
forma concentrada e enérgica.
Segundo a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), o crescimento
das estatísticas de criminalidade violenta em Juiz de Fora estão sob
análise. Por meio de nota, o órgão afirma que "o próprio secretário
Rômulo Ferraz tem acompanhado semanalmente os resultados da cidade e de
outros 13 municípios considerados prioritários - o que tem resultado em
reuniões periódicas, cobranças de ações e operações dos comandos e
chefias de departamentos das regiões." A pasta também reforçou o
investimento no "Olho vivo" e a previsão de mais policiais e viaturas
para a cidade.
* colaborou Michele Meireles
Fonte:
http://www.tribunademinas.com.br/cidade/cem-vitimas-de-mortes-violentas-1.1345682