Último crime foi registrado nesta quarta-feira (20), quando corpo de
rapaz de classe média alta foi encontrado com tiro em estrada do
Náutico; polícia apura se foi homicídio ou latrocínio
Por Sandra Zanella e Marcos Araújo (colaborou Michele Meireles)
Mais dois homicídios foram registrados
em Juiz de Fora em um intervalo de menos de dez horas, elevando para 25 o
número de mortes violentas apenas nos primeiros 50 dias do ano na
cidade. A quantidade de óbitos, com média de um a cada dois dias, revela
a escalada da violência e já representa um quarto de todos os
assassinatos de 2012, quando 99 pessoas perderam a vida por ações
criminosas. Uma das mortes aconteceu no Náutico, na Zona Norte, e a
outra na Vila Olavo Costa, na região Sudeste.
O último caso foi registrado na manhã de quarta, quando o corpo de
Carlos Alberto Pacheco Videira Filho, 29 anos, foi encontrado com um
tiro no lado esquerdo das costas em uma via vicinal na área rural a
poucos metros da Estrada Elias José Mockdeci, no Bairro Náutico. Um
projétil de calibre 38 foi apreendido no local. A 3ª Delegacia de
Polícia Civil instaurou inquérito para apurar o assassinato e trabalha
com três linhas investigavas: a de que o rapaz tenha sido vítima de um
homicídio simples, de latrocínio, que é o roubo seguido de morte, uma
vez que seu veículo, um Golf de cor preta, está desaparecido, e, por
último, queima de arquivo em função de alguma desavença passada. A morte
do rapaz, de classe média alta, morador do Centro, movimentou a
delegacia. Na tarde de quarta, quatro pessoas que tinham ligação com
Carlos foram ouvidas pelo titular da 3ª Delegacia, o delegado Rodolfo
Rolli.
Segundo o delegado, a vítima frequentemente realizava viagens para
Cabo Frio (RJ). "Todas essas informações serão checadas a fim de
traçarmos o que de fato aconteceu, pois tudo leva a crer que a vítima
tenha sido executada, pois seu corpo foi localizado como se estivesse de
joelhos e com braços cruzados na altura do peito. Ele levou um tiro que
perfurou o pulmão esquerdo e atingiu o coração", ressaltou Rolli,
acrescentando que as circunstâncias podem indicar que havia algum tipo
de envolvimento entre vítima e autor do disparo. A hipótese é de que
Carlos tenha sido levado para o local onde foi morto, um lugar
considerado ermo para a realização do crime.
Um rapaz, que teria sido a última pessoa a estar com a vítima e foi
um dos ouvidos na delegacia, teria contado que esteve com a vítima, por
volta da meia-noite de quata. Conforme esta testemunha, Carlos Alberto
estacionou seu veículo na rua do seu prédio e estava sozinho. Eles
teriam conversado por cerca de dez minutos. Carlos teria contado que
fizera um lanche na região do Bairro São Mateus e iria direto para casa.
O corpo da vítima foi avistado por pessoas que passavam pela estrada
vicinal. "Por volta das 6h, recebemos ligação de uma moradora falando
que tinha visto um indivíduo caído ao solo, possivelmente morto.
Comparecemos com duas viaturas e vimos sinais de violência no corpo,
pois a camisa estava suja de sangue", disse o coordenador de
policiamento do 27º Batalhão da PM, tenente Vinícius Araújo Barroso, que
trabalhou na ocorrência.
População assustada
Uma manicure de 29 anos foi quem acionou a PM. "Meu marido saiu de
casa por volta das 4h30 e, no percurso para pegar o ônibus às 5h30, viu o
homem caído. Ainda olhou com a lanterna para ver se conhecia. Quando
fiquei sabendo, liguei para a polícia." Nascida na região, a moradora
disse ter sido surpreendida com o assassinato na área em que reside.
"Ficamos assustados, porque a gente achava que aqui era um lugar
tranquilo. Mas a criminalidade chegou até nesses locais. Parece que
estão vindo aqui fazer maldade."
O sepultamento de Carlos Alberto será às 10h desta quinta-feira (21), no Parque da Saudade.
Jovem morto com cinco tiros
Além do assassinato no Náutico, um jovem de 22 anos foi morto a tiros
na Vila Olavo Costa, Zona Sudeste, na noite de terça-feira. Conforme o
boletim de ocorrência da Polícia Militar, por volta das 20h40, Edmar
Barbosa Dias foi alvejado por cinco projéteis na Rua Padre Aloísio
Jorgler, a poucos metros de onde morava. O rapaz chegou a ser socorrido e
foi levado para o Hospital de Pronto Socorro (HPS), mas não resistiu às
duas perfurações na cabeça, duas no tórax e uma na mão. O corpo foi
encaminhado para o IML.
Segundo a PM, o suspeito de ter cometido o crime é um adolescente,
17, mas ele não foi encontrado durante rastreamento. A suspeita é de que
o crime tenha relação com algum desentendimento entre os envolvidos,
que já teriam sido vistos juntos. A 6ª Delegacia de Polícia Civil
investiga o caso.
Aumento de casos
No ano passado, sete mortes violentas haviam ocorrido nos dois
primeiros meses, número bem abaixo do atual, mas o total de crimes
fatais já havia sido quase o dobro que em 2011, quando os homicídios
chegaram a 52 no município em todo o ano.
Para o delegado titular da 3ª Delegacia de Polícia Civil, Rodolfo
Rolli, o aumento dos crimes de homicídio em Juiz de Fora está ligado ao
tráfico de drogas com a participação de adolescentes e jovens. Segundo
ele, as investigações já mostram que houve uma mudança na maneira de
agir dos traficantes. "Se antes aliciavam os mais novos para a entrega
de drogas, agora estão utilizando-os para execução de pessoas. Estes
crimes estão acontecendo em dupla e com o uso de motocicletas. Quem vai
no carona é o responsável por atirar contra a vítima." Dos sete
assassinatos apurados pela 3ª DPC de 1º de janeiro a 20 de fevereiro,
seis têm ligação com tráfico de entorpecentes, sendo quatro com o
envolvimento de menores de idade. "Os traficantes detêm as armas que
estão sendo passadas para esses garotos, para acerto de contas,
principalmente contra usuários que deixam de pagar pela droga. Além
disso, depois do delito, essas armas voltam para a mãos de seus donos
que as deixam sob a responsabilidade de "guarda-roupas", na maioria das
vezes, mulheres que não têm ligação direta com o esquema de venda de
entorpecente. Isso dificulta o trabalho de retirada desses artefatos de
circulação, pois, em cumprimento de mandado de busca e apreensão, as
armas não são localizadas nas casas dos traficantes."
No último dia 15, um jovem de 21 anos foi morto na porta de casa, no
Nova Era, Zona Norte, com três tiros na altura do peito. Segundo Rolli, a
vítima teria roubado certa quantidade de droga do suspeito de cometer o
crime. Na tentativa de recuperar o material subtraído, o homem teria
disparado contra o jovem. O crime ainda continua sob investigação. A
Polícia Civil admite que há um aumento expressivo nos crimes de
homicídio, que estão relacionados, na maioria das vezes, com o tráfico
de drogas e as brigas de gangues. Por meio de sua assessoria, a
instituição ponderou que, apesar das ações desenvolvidas para frear o
crescimento nos casos, o homicídio é um crime "complexo e difícil de ser
previsto". A Polícia Civil informou ainda que um mapeamento feito no
ano passado apontou que as regiões com maior incidência do delito são a
Norte, Leste e Sudeste, e que estes locais irão receber mais delegados e
escrivães.
A participação de adolescentes nos esquemas de venda de entorpecente
foi evidente em ocorrência registrada pela Polícia Militar, na tarde
desta quarta. Um garoto de 16 anos foi aprendido, na Cidade do Sol, Zona
Norte, com 48 buchas de maconha. Ele estava próximo a uma escola quando
foi abordado pelos policiais. Conforme o cabo da 173ª Companhia da PM,
Luiz Filho, o adolescente contou que o material seria de um traficante
que atua naquela região e que ele vendia cada unidade por R$ 5. Parte do
lucro seria destinada para ele. O garoto foi encaminhado para prestar
esclarecimentos na delegacia.